Entre, leia e ouça-me...

domingo, 8 de maio de 2011

Chama

Obrigada. Obrigada, imensamente.
 E, então, não cabem mais as palavras. Mas eu insisto nelas. Porque não há qualquer coisa melhor em mim do que estas, que possa pintar, da maneira mais verossímil, uma luz. Mesmo quando, ainda assim, não a alcançam de fato, essas serão a visão mais prima dessa chama linda que arde dentro de mim.
Porque tudo é pequeno demais perto de você. Porque você se faz muito maior que a imensidão de coisas relevantes que há para viver. Porque viver novos sonhos e conquistar longas distâncias não representa absolutamente nada, se antes eu não tiver conquistado e vivido cada pedacinho desse brilho, que se chama Mãe.
Obrigada, mais uma vez.
Afinal, o que há de belo para se mostrar a um Amor que, por não caber todo em si mesmo, construiu morada sob o coração, para que lá fosse, durante nove meses, um pequenino pedaço dessa imensidão?  O que há que seja mais pleno que um Amor que lança no mundo, então, suas expectativas, seus sonhos e suas paixões em forma de vida?
O que há para se dizer quando o seu Amor por mim não mede palavras – tanto aquelas que não deveriam ter sido ditas quanto as que não foram, e deveriam ter sido -? O que há para se dar a um Amor que cede a própria existência em função de mim, sem hesitar?
Não resta nada mais grandioso do que o reconhecimento desse mesmo Amor. Amor esse seu, que não provém das coisas finitas, mas que vem incendiando o céu numa centelha cadente e pousa eternamente sobre a sua alma diamantina, Mãe.
Então, anseio. Anseio simplesmente retribuir à Perfeição, de forma que busco, nessa imagem, uma expressão que toque você, qualquer coisa como uma melodia que venta suave em seu rosto. Uma canção que, pouco a pouco, vai preenchendo o olhar e transborda em gotas áureas. Uma sinfonia inteira que purifica o mundo com uma chuva fresca de Amor, Amor, Amor; de tal maneira que a tempestade flui nos rios, desagua nos mares, contagia tudo, tudo, tudo.
O mundo, enquanto isso, desfruta da sua beleza. A última nota, ela ecoa risonha no silêncio dos rostos.  A plateia sorri, a ama. A sua nota resplandece até o fim. Luz, brilha, até o último flash, a última chama: Mãe...

domingo, 1 de maio de 2011

A Última Peça

Deixou a porta aberta
(para ela entrar)
Recostou-se numa parede qualquer
Seus dedos nas notas a sangrar
(para ela o escutar)

Então, ela a estender-se aos seus pés
Suas mãos a passarem até seu peito
É ela delineá-lo (e seu toque arder)
O violão numa melodia triste
Incicatrizável angustiada

As mãos sobre o pulsar
Ela a deitar nele também sua face
E a ouvir no ritmo a alma
(revelam-se as feridas socadas
para dentro do ser em soluçares mudos)

Ela, má, sorri e olha nos seus olhos.
E olha nos seus olhos
E falsamente o pede perdão,
Diz que era tudo inevitável
(mas é mentira)

Gela seus lábios sua sorte
Toca o seio da sua vida, atravessa-a
Traz para fora essa que ainda nele restava
Foi o beijo da morte

Mas retribui, (treme por causa do frio)
Bebe de sua cicuta mortal
(é sim, mui formosa
negra, pois é a Noite
impassível, glacial,
sem Lua, nem mar
sem planícies
sem linhas

sua língua ama de mentira
mas o destrói de verdade
só que nesta última peça,
Seus lábios queima ele)

A seduz, e ela arde em chamas suas
Toma, conquista seus braços
E dá-lhes o corpo que era seu
E ela goza dele, por ele

(mas falha,
e sabe nada ao certo:
já deveria ter ido, mas sente
sente paixão, sente a vida
é quando perde o medo dela...)

Seus beijos ocupam-se de mantê-la saciada
Saturada, queimada em chamas
(que um dia ao vento serão apenas cinzas)
Rouba a sua adaga do tempo
(enquanto toca seus virgens seios nus)

E a morte sangra, então,
Escorre no tempo um pesadelo negro
Em suas últimas palavras, o amaldiçoa
(a flor jaz morta no chão) 
Deixa com ela seu violão
(uma lágrima sequer, não mais:
sem riscos
sem medos
sem dor
sem ela)

Em sua mão, seu coração
E ele o retorna aonde pertencia
(não como antes,
sem aquela alma angustiada
sem a alma inteira)

terça-feira, 12 de abril de 2011

Mea Maxima Culpa

Lágrima, lave esta lembrança
Junto com a face, leve a lembrança:
Meu arrependimento
Aquela dor
Que é também minha
Aquela ferida
Que não cicatriza também em mim
Embace os olhos, cegue-os,
Os corações já sofreram demais...

Por que não o esquecimento?
Mesmo que vazio, mas sem esta dor
Toda dor que alaga este silêncio
Arraza esta solidão
Corrói por dentro
Destrói aquele menino
Me destrói por isso

Ah, lave a esta tristeza
Aquela daquele menino
A sua que é também a minha
Latente
Silenciosa
Será que vai não ter fim?

Lave, leve esta morte, esta mea culpa
Porque me deixou aqui em vida desfalecida
Por terem levado um menino inocente,
Aquele menino inocente da minha sentença

E eu não me entreguei, levaram-no
Eu não me entreguei, levaram-no
E não restou-me sentença alguma
Mas morte, mea culpa
Mea culpa

terça-feira, 29 de março de 2011

Ritornello

Tan, tan, tan, TAAAAAAN
À NOITE! 
A DOR EXCRUCIANTE, VINDA DA ALMA
RASGANDO O PEITO, TOMANDO CONTROLE, marcato:
AS LÁGRIMAS GELADAS, GÉLIDAS, MÓRBIDAS
PINTANDO A FACE, COLORINDO O ROSTO DE PRETO. (DE PRETO...)
ENTÃO, AS LAMENTAÇÕES PESAdas, carregadas, malévolas... (malévolas...)
(angústia...)

(angústia...)

Silêncio.

ROMPENDO O SILÊNCIO, PLANGENDO HARMONIA, legato
SEM RITMO E SEM COR E SEM ALEGRIA E FRAca doída...
staccato, OS GRITOS PUNGENTES, DESESPERADOS, o erguer da batuta. 
(Desesperados...)
- AAAAAAAAAAAAAAAI! AAAAAAAi! Aaaai....ai...por quê? por que, meu Deus, por quê? - do Sol ao Dó, da voz ferida ao silêncio, e o silêncio de novo, de novo...

Silêncio.

Silêncio.

Primeiro, a batuta:
A INDIGNAÇÃO VIVA, sussurante, CRÍTICA, IMENSA, INTENSA, ARDENTE!
Então... então... Vem nascendo, tomando, abundando, sarando, curando por dentro!
Depois, legato, RESSURGE ESPERANÇA esperança, esperança! (espero...)
staccato, então, o sorriso brilhante, cintilante, luzente. Luzente... (luzente...)
TRAGANDO, DESTRUINDO escuridão que tomava o coração, meu, meu coração. O coração... (o coração...)
marcato, felicidade... A FELICIDADE vem e DANÇA, tem nome, Aurora, e os sorrisos... SORRISOS
Ah, a felicidade, enfim.... (felicidade...)
(felicidade...)
(felicidade, enfim...)
...A felicidade lenta...
(shhh!)

Retoma a batuta:
Fe, li, ci, da, de:
E infinita, ao lusco-fusco da manhã:
(ah, felicidade...)
(A felicidade, enfim...)
(A felicidade...)
(Felicidade...)

Sussurra: 
(a felicidade...)
(felicidade...)
(feli...)
(cida...)
(cidade...)
(fé...)
(shhhhhh)
(sorrisos)
lá vem a grande alvorada:

Silêncio...
(shhhh!)

Silêncio...
(sh...)

Silênco...
(s..)

Silêncio:
(Sorrisos...)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Sobre A Décima Sétima Rosa

Esses dias, vagando por uma rua
Perdi meus olhos numa vitrina.
E deixei-os esquecidos lá, desde então.

Seria somente mais uma outra qualquer,
Como aquela rua antes também não me importaria
Mas é sobre o que a vitrina continha:
-Ah, uma rosa vermelha ela incluía...

Em outro tempo, ela também seria
Vã como a rua, como aquela fortuita vitrina.
Mas se aproximava o dia em que eu sentiria
Falta de uma rosa, talvez tão simples como aquela:
Era a tua rosa, minha flor, era tudo sobre a rosa tua
Ganhara quatorze, quatorze lindas rosas tuas.
Rosas, brancas e amarelas...
A décima quinta seria vermelha, me prometeras.
Pois bem, não mentiras, deveras,
A tua última rosa viera até antecipada.
A tua rosa póstuma, vermelha de sangue, me deixaras...

Então, me delongo, estarrecida, até o dia que se acerca.
Diante da vitrina da rosa como a tua, minha única Flor,
Será apenas mais um dia para lembrar da rosa póstuma,
Aquela que descansou sobre teu rosto florido de alegria celestina,
Uma rosa vermelha, aquela que me arrancou minha Rosa (dos ventos)...

E eu prostrei-me inerte perante as minhas memórias tuas, arraigadas.
Doeu no peito ao lembrar-te assim...(eram minhas as rosas, as rosas tuas...)
Guardo em segredo, porém, as dores e lamúrias:
- Pois, Rosa, eu sei que vês em minha postura o ceder...

É por isso, Flor, que eu choro debaixo da promessa de um fim:
Hoje, desfaleço, sem vigor, definho exausta sobre a terra encharcada
- Eu sei, Flor, prometi ser forte, mas hoje não...
À alvorada, no entanto, verás impetuosa a luz do meu florescer!
Depois do orvalho, então, me reerguerei para os raios de Sol e sorrirei:
Mas não hoje, não sem a tua vermelha rosa...

É que mais um ano se vai em vão,
Porque eu sei que o teu presente não estará sobre a minha mesa...
Como a décima quinta, a sexta e a décima sétima rosa, então.
- Ah, como que eu quis que aquela na vitrina fosse de qualquer outra cor!
Mas vermelho escarlate, não.
Porque era a ela de presente quem eu mais queria...


À minha Rosa, aquela diamantina, que brilha intensa, imensa no céu: À Vovó Edy.
Camille Lyra

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Palavrinhas Ingênuas

E se eu disser que quero você?
O que fará?
E se eu disser que estou me apaixonando?
O que dirá?
E se eu disser que te amo?
O que será?

Não sei, não sei...
Mas talvez vez eu queira você, deseje você, ame você ...
 
E se você disser que me quer?
O que farei?
E se você disser que está se apaixonando?
O que direi?
E se você disser que me ama?
O que será?

Não sei, não sei...
Mas talvez você, como eu. Talvez.

Não sei, não sei.
Eu temo que não. Eu desejo que sim.
Mas eu não sei, não sei.
Porque e se for sim? E se não?

Não sei, não sei.
Mas as palavras não sabem mesmo.

O que os olhos veem
O que a pele sente
Por quê o coração saltita no peito
Ou por quê a alma inquieta-se dentro de mim

Quando você me olha assim...
Quando você me acaricia assim...
Quando você passa, simplesmente!

É que as palavras, burrinhas, coitadas, não sabem
Como é quando eu penso em você....

Por Camille Lyra

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

(Des)Enamorados

O amor das palavras
É mentira.
O amor dos apaixonados
É passageiro
O amor de verdade
não cabe em palavras
O amor sincero
não cabe em verdades
O amor genuíno
não cabe junto com a humanidade
que há em mim,
que há em você, meu bem.
Então, o que será de nós?





...ou deixará de ser?

Por Camille Lyra

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Da Brancura

Despertei de noite ao ouvir você chorar. Você ainda estava deitada ali, exatamente onde nos desejamos boa noite. Nós precisávamos que fosse boa, porque o escuro já havia sugado toda força que havia em nossas vidas para acreditar. Acreditar tendo fé. Fé de que a sua dor passaria logo. Fé de que encontraríamos uma cura para toda essa dor perversa que te consumia. Seu corpo tremia, mas você olhava para mim, está tudo bem, eu não me sinto mal, você quase implorou que eu acreditasse. Eu comecei a chorar. Não era justo que fosse você, e não eu. Eu sentia a sua dor como você teria sentido a minha, como você sentiu todas as minhas.
Deitei ao seu lado. Vai ficar tudo bem, você me dizia, você só precisa ter fé, mas eu já não sabia se ainda podia acreditar. O chão estava gelado, eu cobri você com o meu amor machucado, e se eu der um beijinho onde dói? você vai se sentir melhor?, e amei você com o meu cobertor: verdade, eu não estou com frio , pode ficar. Meu coração escorria pelo meu rosto, o frio rude alcançava minha alma e meu sangue quase parava de correr. Não vou deixar você, não vou. Não me deixe também, fica aqui comigo; sussurrei.
Você vinha enxugar as minhas lágrimas com seu pelo. Era o meu pompom alvo, branquinho, de algodão, meu floquinho de neve. Você colocou o focinho sobre o meu pescoço, não chore, eu te amo, segredou. A dor debilitava seus movimentos, mas você, com muito esforço, se aconchegou ao meu lado. Era você que doía,e ainda se compadecia de mim. Tudo doía mais ao perceber que era você quem me consolava. Não é justo com você, e eu não consigo te fazer melhor, não é justo!, você suplicou com os olhos luzentes que eu não sofresse também. Mas como posso eu não sofrer? você também não me deixaria, se eu estivesse doente assim. Você, me enchendo de beijinhos na bochecha, concordou com o que eu disse.
E eu me arrependi.
Me arrependi de cada vez que eu briguei quando você me lambia o rosto. Cada vez que eu briguei quando você roubava meus sapatos por eu não te dar atenção. Me arrependi de quando mandava você parar de latir, agora eu sinto falta do barulho que você fazia. Me arrependi de não ter corrido pela casa com você exatamente todas as vezes que você mordeu meus tornozelos, me chamando para brincar de pique-pega. Sinto falta de você correndo pela casa. Sinto falta da companhia que eu tinha para caminhar na rua, entretida com meus pensamentos distantes. Você alcançava todos eles. Sinto falta de você para segredar meus segredos mais secretos. Sinto falta da vida com que você iluminava essa casa. Sinto falta da alegria que você iluminava em mim. Sinto sua falta, minha única, minha verdadeira melhor amiga.
Sabe, era uma tarde de Dezembro e eu estava brincando no meu quarto, já estava de férias da escola. Nesse dia, vovó tinha me dito que nós iríamos receber uma visitante, viria de mala e cuia, e iria ficar por um tempo morando conosco. A mamãe chegou mais cedo, a campanhia gritou e eu saí correndo para falar com ela para descobrir quem era essa tal visitante misteriosa. Vovó abriu a porta e mamãe apareceu com uma caixa de papelão enorme. Surpresa!, ela e vovó sorriram para mim. Eu não tinha entendido nada, fiquei curiosa, quis saber o que tinha naquela caixa. Corri para olhar para dentro dela e foi quando eu e você nos vimos pela primeira vez.
Você era pequena demais para aquela caixa monstruosa. Você era o meu presente de Natal pequeno e assustado. Quer ser minha amiga?, você me lambeu e eu passei a amar você. Com um beijinho você me conquistou. Um beijinho de amor.
Qual vai ser o nome dela, mãe? Não sei, filha, você quem escolhe. Pode ser Bianca, mãe?, porque me lembra branca.... Por que não Bia, filha ?, disse papai que tinha entrado pela porta depois da grande surpresa, combina mais com ela. Vovó mesma gravou depois Bia na sua coleirinha vermelha. Mas a gente sempre soube que Bia é de Bianca, claro. E Bianca porque você é Branca. Pura.
Você, o meu algodão de amor alvo, permanecia ali a me ouvir tagarelar. Você tinha toda a paciência do mundo. Você sempre me respondia com lambidas quando eu deitava ao seu lado chorando problemas, medos e angústias. Você ali era a mesma, esperando por mim todo tempo do mundo.Você sempre cuidou mais de mim do que eu de você. Sempre.
Você deixou escapar, então, um olhar lânguido, você estava cedendo à dor. Peguei sua pata. Você ma estendia, para que eu não ficasse com medo vendo você sofrer. Por favor, Deus, não deixe ela morrer!, eu chorei aflita. Era o temor frente à possibilidade de te perder pra sempre. Não. Ainda não posso suportar isso. Ainda é cedo demais... fica comigo, não vá! você é a minha melhor amiga, não é? então fica! ah, céus! como sou egoísta.. não é justo com você.. por favor, não deixe que ela sofra, Pai, por favor! se você pode me ouvir daí, por favor, me ajuda a ter fé de que vai ficar tudo bem, por favor!, eu clamei, num pranto agonizante.
Eu e você passamos, juntas como sempre, mais uma noite ali, deitadas no chão frio. O seu choro era o meu choro, a sua dor, a minha também. Éramos eu e você. Nós duas. Uma amizade só. Que seria para sempre. Independente da dor. Independente do tempo. Independente das falhas. Para sempre, Bia.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Réveiller

Eu estava pronta para o início dos fogos. Houve sorrisos, lágrimas, celebrações, decepções, melancolias, força, honra, alegria, tristeza, fidelidade e traições, amizades e vínculos, que se quebraram, que nasceram. E tudo mais que se deve encontrar pelo caminho. Tudo tinha me trazido pela mão até aqui. Então, eu olhava para cima. O céu era nublado, o dia tinha sido chuvoso. Faltava um minuto para meia noite. Foi quando o primeiro risco rasgou o céu com um rastro branco de purpurina. O azul escuro cintilou.
De repente, a noite ficou clara, ia ficando clara como o dia, sem que houvesse Sol, e, então, o infinito tornou-se totalmente branco. Branco, tudo ficara brando. Silêncio. Não ouvi uma voz sequer das pessoas que estavam comigo. Talvez ninguém tivesse nada a acrescentar à imensidão formada diante dos olhos humanos, pequenos. Talvez eu estivesse ficando louca. Completamente louca.
Logo, no centro do meu campo de visão, pude ver um pequeno ponto preto. Esse ponto, então, tornou-se um pouco maior, formava um círculo de diâmetro próximo ao de uma bola de basquete. O buraco, no meio daquela cortina branca, também não era mais preto. Era azul-marinho.
Eu fiquei observando aquela bola de basquete alienígena que ocupava o lugar dos fogos. O que será que... ?
Foi quando surgiu um clarão, juntamente com um vento muito forte que lançou-me no chão. Quando me levantei e olhei novamente, era como se o chão abaixo de mim começasse a subir. Olhei pra baixo e vi que o resto do chão ficava cada vez mais distante. Mais alto... foi quando cheguei a uma determinada altura, tão grande, que eu tinha medo de olhar pra cima. Também tinha medo de olha pra baixo. Tinha medo de perder o equilíbrio e cair.
Tentei o que pude para me equilibrar, mas aquele vento forte soprou novamente e eu fui arrebatada do pedaço de chão que antes me sustentava.  Fechei os olhos, sabia que seria o fim.
Puf! Eu tinha caído em algo fofo. A textura era como se fosse um monte de penas. Ou como se eu entrasse em uma piscina com milhões de minúsculas bolinhas de isopor. Era uma nuvem? Mas...
Então, eu percebi que o céu não era mais branco. Na realidade, estava estrelado, e voltara à sua cor natural, azul-marinho. No lugar da bola de basquete estranha, havia uma estrela, ocupando o mesmo espaço de antes. Era uma estrela gigante.
Essa estrela logo começou a crescer mais ainda, até que dela começou a sair um pedaço, parecia de pano, da mesma cor do céu, só que ainda com mais estrelas que o próprio dono delas. Foi depois que eu percebi que na barra desse pano projetavam-se dois pés. Isso mesmo, dois pés.
Olhei para cima e vi uma mulher de cabelos brancos e muito longos. Seus cabelos corriam até ao final de suas costas, eram completamente brancos. Seus olhos eram duas estrelas que brilhavam mais forte do que qualquer outra que eu já tinha visto antes. Seu lábios eram como se fossem pétalas de uma rosa, suaves. O pano que eu tinha visto primeiro era uma manta que cobria sua pele, como se ela tivesse pego um pedaço do céu emprestado para cobrir sua nudez. Sobre a sua pele, não consegui definir sua cor precisamente. Era como se, cada vez que eu olhasse, ela fosse de outra cor totalmente diferente.
Então, de dentro da manta da mulher, saiu um bebê, enrolado em uma outra manta exatamente como a dela, só que menor. Esse bebê flutuava, acompanhando o olhar dessa mulher. Eu estava pasmada com tudo que via. Era lindo, era imenso. Como tudo aquilo poderia não ser um sonho, um devaneio sem limites?
Enquanto eu formulava questões, a mulher ia, lentamente, dirigindo seus olhos para a minha direção. Eu acompanhava olhando o bebê que veio parar exatamente na minha frente. E ela me disse, sua voz era a mistura de todas as melodias que eu mais gostava, formando uma harmonia perfeita e impossível, "cuide bem dele, minha amada."
Eu senti-me quase que em transe após ouvir aquele som. Eu poderia ficar a vida inteira ouvindo ela dizer qualquer coisa, até mesmo repetindo a mesma coisa até a eternidade: "cuide bem dele, minha amada.", "cuide bem dele, minha amada.", "cuide bem dele, minha amada.", ...
De súbito, eu despertei, como se alguém estalasse os dedos para isso. O bebê estava ali, na minha frente. Então, estiquei meus braços a fim de alcançá-lo. Ao tocá-lo, era a pele suave e macia de um bebê normal. Parecia um bebê normal. Só que tinha os cabelos brancos e os mesmos olhos da mãe. Aninhei-o em meu colo e aproximei meu rosto do dele. Sua mãozinha, então, acariciou-me, como se ele soubesse o que estava fazendo. E eu disse " prometo que vou cuidar muito bem de você, bebezinho.", depois olhei para cima para procurar a mãe. Ela não estava mais lá.
Foi quando eu me perguntei, se dizer em voz alta, como eu iria fazer aquilo sozinha. Então, eu pude ouvir aquela mesma melodia maravilhosa tocando, que dizia claramente "você não está sozinha, eu estou com você sempre.", "você não está sozinha, eu estou com você sempre.", "você não está sozinha, eu estou com você sempre.", ...e novamente o dedo se estalou e eu pude ouvir o bebê chorar, seu choro era uma linda melodia também, mas não como a voz dela, era como uma só flauta tocando.
De repente, silêncio. E, olhando pra cima,o clarão voltara, depois o céu branco, e enfim nublado e riscado de purpurina. Pude ouvir as vozes dos meus familiares primeiro, como se eu estivesse saindo de um isolamento acústico aos poucos. Depois pude ouvir outras vozes mais ao longe. Depois ouvi gritos, e ouvi o barulho dos fogos, mas era como se tudo isso estivesse passando diante dos meus olhos e eu não conseguisse assimilar. Como se eu ainda estivesse dormindo, sonhando aquele sonho.
Então, percebi que o bebê não estava mais lá. Eu ainda ouvia seu choro como se uma mosquinha tivesse entrado em meu ouvidoe tocasse dentro da minha cabeça. Mais distante ainda, ainda ouvia a harmonia maravilhosa que era a voz dela dizendo que eu nunca estaria sozinha. Uma mão, de repente, tocou meu ombro:
-Filha, que esse Ano Novo te traga muito crescimento, ele apenas acaba de nascer. Há muito pela frente! Feliz Ano Novo, minha querida.. - meu Pai dizia em meu ouvido.
- Seja bem vindo, Ano-Novo! - disse ao bebê, chorão e recém-desperto.
E foi quando eu despertei também.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Breve Hesitar ( O Diário de Ela - V )

I was young but I wasn't naive, I watched helpless as he turned around to leave. And still I have the pain I have to carry (a past so deep that even you could not bury if you tried).

- Eu disse, sem compromissos. No ritmo, inconsequentes. Esquece. Só eu e você. Ainda não encontrei um motivo para dizer não. Deixa ser, então, de novo, sem pensar. Antes, te quis tanto assim no pensamento, o prazer em segredo... sem pensar, está bem:? Nada mais importa: somos apenas eu e você, enfim.
- Ah ?

After all this time, I never thought we'd be here. Never thought we'd be here, when my love for you was blind...

- É só um jogo, sei. Tudo isso vai passar, não vai? Quando acabar, vou fingir que não lembro mais de você. Fingir que sou capaz de esquecer. Você é tudo agora. E acabará. Não, eu não posso te ter para depois perder. Cansei de sentir esse medo. Eu nunca vou ter você, nem mesmo agora.

But I couldn't make you see it, couldn't make you see that I loved you more than you'll ever know, a part of me died when I let you go...

- Shh ! Ei! Eu aqui, olha ! Não chora, não, amor. Olha, olha pra mim... eu peço a sua mão, sem nem titubear. É que Você linda, eu tonto. Você, uma pétala delicada, eu, as mãos rudes que te colheram. Cuidarei de você, sempre. Eu quero regá-la todos os dias, pra poder cheirar minha flor. Não sei como dizer, não sei. Seu sorriso é incenso pra mim, sua pele, meu travesseiro... como agora, para sempre, está bem? É que não sei dizer o quanto... vai, fecha os olhos: não é só seu. O sonho é nosso.

I would fall asleep, only in hopes of dreaming that everything would be like it was before...

- Preciso saber: seus olhos nos meus, assim, para sempre? Juntinho? Mesmo, mesmo?
 O calor que emana do teu coração gigante, aquecendo-me nos invernos...O teu olhar, fresco de maresia, soprando sobre mim toda a ternura do mundo.... eu preciso, preciso desse incêndio devastando mina essência,  preciso desse oceano alagando meu ser.! Preciso. Sempre...
- Você sabe, não me apaixono em vão. Você também sabe que tenho sempre o que dizer, domino as palavras. Não mais. É você, tirando-as de mim a cada suspirar... Não sei o que dizer, é como... não saber mais respirar, perder palavras em você. Isso que sinto é... impossível! Eu, eu...

But nights like this it seems are slowly fleeting, they disappear as reality is crashing to the floor...

- Shh... só eu e você, então, tá ? Não precisa dizer. Para sempre como nunca foi, utopia...
- Mas é verdade, juro que eu ...
- Shh... não discutamos a fantasia, meu amor. Deixa ser para sempre até o fim, porque o tempo só vai durar enquanto houver o sonho...

Maybe you could not believe it, that my love for you was blind. I couldn't make you see it, that I loved you more that you'll ever know. A part of me died when I let you go ...

Quem sou eu

Minha foto
Camille Lyra. O nome fala muito da feição, tanto na sua significância quanto na sua origem; já o sobrenome faz jus à escrita predileta da autora. Sempre curiosa demais, sonhadora demais, ambiciosa demais, romântica demais, intensa demais. E, daquilo que exceder tudo isso, faço poesia.